De FLOR BELA… A Obra!

Nascida no coração do Alentejo, expressão máxima da poesia portuguesa, Florbela Espanca foi uma inteligência culta, plantada numa família de artistas e nutrida num ambiente de erudição, aconchegada pela envolvência do Paço dos Duques de Bragança, na encantadora e bucólica Vila Viçosa.

Na sua obra literária, imaginação, sensibilidade, paixão e desalento, abraçadas a um vivo sentido estético, revela-se  a genuinidade da Mulher e do seu pensamento mergulhados nas palavras. As formas perfeitas e melodiosas da sua poesia retratam de modo fiel a vida na sua plenitude, com as vitórias e as derrotas, as alegrias e as desilusões...claras, ditas sem pudores ou medos e por isso dando voz a um universo calado à época pelos usos e costumes.

Florbela Espanca exalta o seu dom para a escrita desde tenra idade, e aos oito anos, menina, escreve o seu primeiro poema - “A vida e a Morte” , em 1903, dando sinais de uma maturidade precoce .

Mais tarde, entre 1915 e 1917, no espaço de um ano e meio, em Lisboa, um novo alento gera “Trocando Olhares”, onde 144 poesias, uma dedicatória em verso e três contos, se juntam a um conjunto muito significativo de cartas.

Neste período, dedica-se apaixonadamente à sua produção poética, estabelecendo contactos e tentando abrir portas junto de eventuais mecenas, com o intuito de ver os seus textos publicados. Colabora com revistas e jornais, mas os seus trabalhos são sistematicamente adulterados, descaracterizando a essência e a originalidade dos seus escritos. Estar à frente do tempo, num tempo em que o feminino tinha um lugar pressuposto...

A poetisa procura, incansável,  apoios, mas não teve sucesso nas tentativas de tornar sua obra conhecida.

Porém, o que foi escrito durante esse tempo serviu de base para a conceção de um legado artístico que só virá a ser reconhecido e valorizado depois da sua morte. Em vida só viu duas antologias publicadas.

As primeiras vendas da sua Obra aconteceram em 1919, com o “Livro de Mágoas”, editado por Raul Proença, que teve duzentos exemplares publicados, os quais foram vendidos rapidamente.

A sua primeira obra oficial foi composta por sonetos, a grande marca literária da poetisa. A segunda coletânea de sonetos foi publicada em 1923 com o título “Livro de Sóror Saudade”, uma obra editada por Francisco Lage e patrocinada pelo pai, o antiquário e fotógrafo João Maria Espanca, uma figura ímpar do seu tempo.

Além da poesia, a autora portuguesa escreveu para jornais, com especial destaque para o periódico “D. Nuno” de Vila Viçosa (dirigido pelo seu amigo José Emídio Amaro) e traduziu obras literárias de forma regular. Com tempos de  grande produção artística, Florbela alternava  meses de completo afastamento da escrita, em particular da poesia.

No final do ano de 1927, em “Máscaras do Destino”  reúne os contos que tinha posto em papel dedica-os ao seu irmão Apeles, tragicamente desaparecido num acidente de aviação no rio Tejo - “A meu Irmão, ao meu querido Morto".

Segue-se o “Diário do último ano”, em 1930,  que só décadas depois do seu desaparecimento, em 1981,  verá a luz do dia Florbela ascende na noite entre 7 e 8 de dezembro de 1930. Em Matosinhos.

Florbela parte deixando muitos sonhos e projetos por concretizar e grande parte do seu legado literário por publicar.

Vivendo numa sociedade que nunca a compreendeu, o reconhecimento da Mulher e da Poetisa só ocorre depois do seu precoce desaparecimento, que deu origem a um mito que ainda hoje permanece envolto em certo mistério.  

Deste modo, em janeiro de 1931, é publicado o livro “Charneca em Flor”, editado por Guido Battelli, amigo e confidente de Florbela, professor italiano de Literatura da Universidade de Coimbra. A relação de amizade entre ambos tinha-se iniciado em 1930, com uma intensa troca de correspondência, que durou até final da vida da poetisa.

É Battelli que dá um grande impulso à edição das obras florbelianas que não viram a luz do dia durante o período em que Florbela viveu.

Em julho desse mesmo ano, pela mesma mão, são editados postumamente o “Livro de Mágoas”, “Soror Saudade” (2ª edição), “Juvenília”, “Cartas de Florbela Espanca a D. Júlia Alves e a Guido Battelli” e a segunda edição de “Charneca em Flor”, com vinte e oito sonetos inéditos (Reliquiae).

Em dezembro, é publicado o livro de contos “As Máscaras do Destino”, que demonstra a qualidade da sua escrita em diversas vertentes, de modo eclético.

Noventa e um anos depois da sua morte, o vasto legado de Florbela Espanca continua a inspirar outros escritores e poetas, assim como um vasto número de admiradores em todo o universo lusófono.

Diversas edições sobre a sua obra têm vindo a ser publicadas ao longo das últimas décadas, fruto do trabalho de investigação de muitas universidades um pouco por todo o mundo, com diversos contributos e análises de reputados investigadores e académicos, que encontram na obra florbeliana um manancial de pesquisas literárias de grande relevância.  

Aqui, na sua casa, trataremos de devolver  a cada pétala da sua obra a importância que merecem, dando voz aos que as estudam,  à Obra e à Mulher ...que tantas vezes se confundem numa existência só.

A Obra terá aqui um espaço próprio para ganhe vida pela divulgação, mas também por abraçar as letras dos autores que de forma universal e sem fronteiras estudam as Palavras de Florbela Espanca, por abraçar o que se sabe e o muito que ainda há por descobrir

Bibliografia ativa

Poesia

Tiago Passão Salgueiro

1919 Livro de Mágoas. Lisboa: Tipografia Maurício.
1923 Livro de Sóror Saudade. Lisboa: Tipografia A Americana.
1931 Charneca em Flor. Coimbra: Livraria Gonçalves.
1931 Juvenília: versos inéditos de Florbela Espanca (com 28 sonetos inéditos). Estudo crítico de Guido Battelli. Coimbra: Livraria Gonçalves.
1934 Sonetos Completos (Livro de Mágoas, Livro de Sóror Saudade, Charneca em Flor, Reliquiae). Coimbra: Livraria Gonçalves.

Prosa

1931 As Máscaras do Destino. Porto: Editora Marânus.
1981 Diário do Último Ano. Prefácio de Natália Correia. Lisboa: Livraria Bertrand.
1982 O Dominó Preto. Prefácio de Y. K. Centeno. Lisboa: Livraria Bertrand.
2019 O Diário e O Dominó Preto. Prefácio de Fábio M. Silva e Luísa Vilela. Viseu: Edições Esgotadas.

Epistolografia

1931 Cartas de Florbela Espanca (A Dona Júlia Alves e a Guido Battelli). Coimbra: Livraria Gonçalves.
1949 Cartas de Florbela Espanca. Prefácio de Azinhal Abelho e José Emídio Amaro. Lisboa: Edição dos Autores.

Traduções

1926 Ilha azul, de Georges Thiery. Figueirinhas do Porto.
____ O segredo do marido, de M. Maryan. Biblioteca das Famílias.
1927 O segredo de Solange, de M. Maryan. Biblioteca das Famílias.
____ Dona Quichota, de Georges de Peyrebrune. Biblioteca do Lar.
____ O romance da felicidade, de Jean Rameau Biblioteca do Lar.
____ O castelo dos noivos, de Claude Saint-Jean
____ Dois noivados, de Champol. Biblioteca do Lar.
____ O canto do cuco, de Jean Thiery. Biblioteca do Lar.
1929 Mademoiselle de la Ferté (romance da actualidade) de Pierre Benoit. Série Amarela.
1932 Máxima (romance da actualidade, de A. Palácio Váldes. Coleção de Hoje.)

Bibliografia

AMARO, José Emídio, “O drama de Florbela Espanca”, Revista Alentejana nº 29, 1-5, dezembro 1964.
CORREIA, Natália, “Prefácio – A Diva”, in ESPANCA, Florbela, Diário do Último Ano, Lisboa, Bertrand, 1981, pp.9-30.
DAVID, Celestino, “Charneca em flor”, in Diário de Notícias, Lisboa, 25 de janeiro de 1931, p.13, compulsação, recolha e digitalização por Maria Lúcia Dal Farra.
GUEDES, Rui, Acerca de Florbela, Lisboa, Dom Quixote, 1986.
PRO-ÉVORA, Grupo, Exposição Bibliográfica e Iconográfica, Comemorações do 1.º Centenário Florbela Espanca, Évora, Grupo Pro-Évora, 1994.