Uma mulher como poucas

A 8 de Dezembro de 1894 – dia de Nossa Senhora da Conceição – nasce Florbela, batizada com o apelido Lobo, na casa da Rua do Angerino, em Vila Viçosa, no Alentejo. Filha de Antónia da Conceição Lobo, camponesa e criada de servir e do antiquário e fotógrafo João Maria Espanca, que era, por sua vez, casado com Mariana do Carmo Toscano.

Mariana e João Maria não podiam ter filhos – Mariana era estéril – e por isso, com a conivência da mulher, o republicano começou a relacionar-se com Antónia, uma mulher que muitos descrevem como sendo bela e vistosa.  
Desta ligação nasceram Florbela e, três anos depois, Apeles, ambos registados como filhos de Antónia e de pai incógnito.

As crianças foram criadas na casa dos Espanca, sendo tendo sido Mariana escolhida como madrinha de batismo dos dois. Embora com uma relação próxima, só postumamente Florbela foi reconhecida como filha legítima de João Maria. No entanto, a infância passada na casa paterna, num ambiente influenciado pela arte, pela música, pela política e pela literatura, com acesso à educação, peças de bom gosto e convívios com a família real – o rei D. Carlos e a rainha D. Amélia eram clientes do antiquário João Maria Espanca –, acabou por ditar o seu futuro.

Os verdes anos

Florbela entrou para a escola primária de Vila Viçosa em 1899, diz-se que precocemente, onde permaneceu até 1908. Foi nessa época que evidenciou a sua paixão pela escrita, tendo começado a assinar os seus textos como Flor d’Alma da Conceição.

A sua primeira composição poética conhecida, intitulada “A vida e a morte” – um soneto em redondilha maior que escreveu em homenagem ao irmão Apeles – data de 11 de Novembro de 1903. Florbela tinha apenas 9 anos.

Em 1907 escreveu o seu primeiro conto, dedicado à mãe – o título não deixa enganar: “Mamã!” –, pouco antes de esta falecer, aos 29 anos, no Hospital da Misericórdia de Vila Viçosa, vítima de um distúrbio do foro psiquiátrico. Uma perda marcante para a pequena Florbela, aos 11 anos, mas que não a distraiu do seu percurso escolar, que continuou no Liceu André de Gouveia, em Évora, até 1912.

Sendo  uma das primeiras mulheres em Portugal a frequentar o liceu ,  foi durante este período que aprofundou os seus conhecimentos literários, tendo requisitado, na Biblioteca Pública de Évora, obras de grandes escritores como Honoré Balzac, Alexandre Dumas, Camilo Castelo Branco, Almeida Garrett, entre tantos outros.

De menina a mulher

Mulher feita, com 18 anos assume namoro com o companheiro de escola Alberto Moutinho, com quem viria a casar em 1913, passando o casal a viver no Redondo, também no Alentejo.

Nestes primeiros anos de casada, Florbela inicia a criação de um caderno que reunia a sua ainda jovem obra poética, a que deu o nome de “Trocando Olhares”. É um livro onde seleciona e junta as suas produções poéticas – sem ordem cronológica, que lhe serviu, mais tarde, de ponto de partida para futuras publicações – e que dedica ao marido.

Este foi, possivelmente, o mais produtivo período poético da sua vida. Entre 1915 e 1917, em apenas um ano e meio, escreve 34 cartas, 144 poesias, uma dedicatória em verso e três contos. Apenas quatro destas poesias viriam a ser publicadas na época. As restantes, assim como os contos, mantiveram-se inéditos até à edição das “Obras Completas”, da autoria de Rui Guedes, em 1986.

Ainda em 1915, Florbela estreia-se como jornalista na “Modas & Bordados”, um suplemento do jornal “O Século”, de Lisboa, no “Notícias de Évora” e em “A Voz Pública”, estes últimos em Évora.Regressada a esta cidade, em 1917, Florbela terminou o 11º ano do Curso Complementar de Letras e matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Foi uma das 14 mulheres entre os 347 alunos inscritos.

Três casamentos e várias perdas …

Nem tudo, quase nada, foram rosas para Florbela Espanca. Em 1918, sofreu um aborto espontâneo que a marcou bastante, obrigando-a a passar uns tempos numa casa de repouso em Olhão. Foi aqui que apresentou os primeiros sinais preocupantes de doença, à semelhança de sua mãe.

Um ano mais tarde, publica a sua primeira obra, “Livro de Mágoas”, com sonetos – uma tiragem de 200 exemplares que esgotou rapidamente.

O casamento com Alberto estava em crise e, ainda casada com este, em 1920, Florbela interrompe os estudos na faculdade e vai viver com o alferes de Artilharia da Guarda Republicana António Guimarães, que conhece nesse ano. Só no ano seguinte, finalmente divorciada de Alberto Moutinho, casa em segundas núpcias com Guimarães, indo viver para o Porto.

A estadia a norte não duraria: em 1922 o casal mudou-se para Lisboa, onde Guimarães se tornou chefe de Gabinete do Ministro do Exército. A carreira de escritora continua a dar frutos. A 1 de Agosto de 1922, a recém-fundada “Seara Nova” publicou o soneto que Florbela dedicou a Raul Proença, intitulado “Prince Charmant”. E, em janeiro de 1923, edita o “Livro de Sóror Saudade”, a sua coletânea de sonetos.

Já a vida pessoal voltava a viver dias difíceis. O casamento com Guimarães está nas ruas da amargura – numa carta não datada, Florbela conta ao pai que sofria de maus tratos infligidos pelo marido. Florbela sai de casa e, para pagar as contas, começa a dar aulas particulares de português. O segundo divórcio sai em 1925, um ano particularmente difícil para a poetisa, não só pelo final do casamento, como pela perda da “madrasta” e madrinha, Mariana – de quem o pai se tinha divorciado anos antes, voltando a casar, desta feita com Henriqueta de Almeida – e que lhe deixa uma avultada herança.

Nesse mesmo ano, Florbela volta a casar, com o médico Mário Pereira Lage, amor que tinha encontrado anos antes e com quem já partilhava a vida. O enlace aconteceu em Matosinhos, no Porto, onde o novo casal passou a residir.

A carreira literária da poetisa continua produtiva. Em 1927 começou a colaborar com o jornal “Dom Nuno”, de Vila Viçosa, e procurava editor para a nova coletânea, “Charneca em Flor”, considerada  por uma vasta maioria, a sua obra-prima. Dedicava-se ainda à preparação de um volume de contos, “O Dominó Preto”, que só viria a ser publicado postumamente, só nos anos 80. Em paralelo, fazia tradução de romances para duas editoras.

Perder o irmão Apeles e um fim anunciado

Chegaria nesse ano de 27 o maior golpe sofrido pela escritora. A 6 de Junho, Apeles Espanca, seu irmão, de apenas 30 anos, perde a vida num trágico acidente de avião, perto de Belém e nas águas do Tejo.

O falecimento  de Apeles foi devastador para Florbela, que lhe dedicou, em homenagem, um conjunto de contos a que chamou “As máscaras do destino”, publicado em 1931, já depois da sua morte.

A saúde mental de Florbela – fragilizada por dois divórcios, pela morte da madrinha e, agora, do irmão – agrava-se. Bem como a relação com Pereira Lage. Em 1928, tenta o suicídio pela primeira vez.

Com mais um casamento falhado, a escritora começa a escrever o seu Diário do Último Ano (publicado em 1981), naquele que foi mesmo o seu último ano de vida. Embora em depressão, ainda viveu um rápido romance com Luís Maria Cabral, médico e grande pianista.

No ano de 1930, voltou a atentar contra a vida por duas vezes. Diagnosticada com um edema pulmonar, a poetisa perdeu a vontade de viver e não resistiu à terceira tentativa de suicídio.

A sua chama apaga-se ... em Matosinhos, no dia do seu 36º aniversário, a 8 de Dezembro de 1930.

A causa foi, alegadamente, uma sobredosagem de calmantes. A verdade é que a análise de parte do acervo inédito que se encontra na posse da Casa Florbela Espanca levantou algumas incongruências nas datas e últimas horas de Florbela, mas estamos certos que a evolução deste estudo trará luz a este mistério. Consta  também que a poetisa terá deixado uma carta com as suas últimas vontades. Entre elas, o pedido para que fossem colocados no seu caixão os restos do avião pilotado por Apeles quando sofreu o acidente. O funeral decorreu em Matosinhos, mas Florbela Espanca descansa, desde Maio de 1964, no cemitério de Vila Viçosa, a terra que a viu nascer.

Foram 36 breves anos de uma vida recheada de controvérsia. A postura pouco comum para uma mulher à época – divorciada duas vezes nas primeiras décadas do século XX – rendeu-lhe o epíteto de uma das primeiras feministas de Portugal. Exímia sonetista, com um registo aproximado ao de Camões e ao de Antero de Quental, a sua obra debruçava-se sobre temas como a solidão, a feminilidade, o erotismo, o sofrimento, o desencanto, a morte e a busca pela felicidade.

Biografia

Bilhete de Florbela Espanca

Desapareci, fui correr o mundo que é grande e onde ninguém se encontra. Diz à Henriqueta que lhe mando um abraço e que apesar de tudo sou bem amiga. Adeus, pae da minh’ alma. Se te causo desgosto, perdoa-me e crê sempre que te estimo infinitamente.

Tua Filha
Flôrbela

A VIDA E A MORTE

Largamente valorizada do ponto de vista académico e esquecida pelo exacerbado conservadorismo duma sociedade que não a entendeu, foi precursora de uma moderna poesia, que a tornou lendária. Tendo em conta o seu valor poético e a forma como soube defender os seus ideais, Florbela é um nome incontornável da cultura em Portugal. Lutou, até ao fim dos seus dias, pela sua poesia, batendo a todas as portas para conseguir levar a sua obra ao reconhecimento. Tarefa nada fácil para uma mulher, nesse tempo. Porém, a sua ousadia, irreverência e até atrevimento deram os seus frutos.

1894
8 Dezembro - Nasce Florbela na casa da Rua do Angerino, em Vila Viçosa.
1895
20 de Junho – Florbela é baptizada em Vila Viçosa, com o nome de Florbela Lobo.
1899
Outubro – Florbela, precocemente, frequenta a secção infantil da escola primária, na Rua de Cambaia.
1903
11 de Novembro – Florbela escreve a sua primeira poesia conhecida “A vida e a morte”.
1906
10 de Julho – Conclui o exame da instrução primária 2o grau, 5a classe com o Professor Romeu.
1908
Com a idade de 29 anos, morre em Vila Viçosa, no Hospital da Misericórdia, a mãe de Florbela, Antónia da Conceição Lobo.
1910
Julho - Florbela completa a 4a classe no Liceu André de Gouveia.
1912

Florbela namora oficialmente com Alberto Moutinho, que conhece desde 1904.
1915
10 de Maio – Florbela inicia a produção de um caderno com o nome “Trocando Olhares”, com duas quadras intituladas “No Minho” e datadas de 10 de Maio de 1915. É o livro onde passa a limpo e guarda todas as suas produções sem ordem cronológica e que dedica ao seu marido. Entra talvez no mais produtivo período poético da sua vida. Retoma o “Trocando Olhares”. Em um ano e meio (de 21 de Novembro de 1915 até 30 de Abril de 1917) escreve 144 poesias, 1 dedicatória em verso e 3 contos. Este documento engloba ainda os livros “O Livro d’Ele”, “A Minha Terra” e “O Meu Amor”. Somente quatro destas 145 poesias viriam a ser publicadas. As restantes, bem como os outros 3 contos, mantiveram-se inéditos até à edição das “Obras Completas” da autoria de Rui Guedes em 1986. Florbela Espanca escreveu ainda neste período 34 cartas.
1917
9 de Outubro – Florbela matricula-se na Faculdade de Direito de Lisboa.
1920
Janeiro – Florbela conhece António Guimarães.
1921
30 de Abril – Divórcio de Florbela e Alberto Moutinho.
29 junho – Realiza-se o segundo casamento civil com António Guimarães.
1922
4 de Julho – casamento de João Maria Espanca com Henriqueta das Dores de Almeida.
1923
Janeiro -É editado o “Livro de Soror Saudade” por Francisco Lage.
Em nova carta ao pai não datada, informa João Maria Espanca sobre os maus tratos físicos infligidos por António Guimarães.

1925
23 de Junho – É decretado o divórcio de Florbela e António Guimarães.
15 de Outubro – Realiza-se o terceiro casamento civil de Florbela, em comunhão de bens, com o Dr. Mário Pereira Lage.
1926
Florbela escreve ao irmão Apeles, solicitando ajuda para a resolução de um problema judicial de Mario Lage no Supremo Tribunal.
1927
6 de Junho – Morte do irmão Apeles Espanca.
1928
Florbela escreve a José Emidio Amaro referindo que deseja publicar na primavera o livro “Máscaras do Destino”.
17 de Junho – A relação com Mário Lage degrada-se rapidamente. Florbela descobre verdades do passado e do presente do marido.
Julho – Florbela apaixona-se por Luís Maria Cabral, médico e também grande pianista e concertista.
29 de Agosto – Mário Lage escreve a João Maria Espanca informando do grave estado de saúde de Florbela.
1929
9 de Maio – Florbela viaja para Évora via Lisboa.
Mário Lage escreve uma carta a João Maria Espanca, avisando o sogro que Florbela está em estado debilitado.
1930
11 de Janeiro – Florbela inicia o seu diário, que viria a publicar-se em 1981 como título “Diário do Último Ano”.
10 de Julho – Guido Battelli oferece-se para editar o seu livro “Charneca em Flor”.
Dia 6 de Dezembro –João Maria Espanca recebe um telegrama de Mário Lage.
Dia 7 – João Maria Espanca parte de Vila Viçosa para Elvas às 14h30m.
Dia 8 – João Maria Espanca chega a Matosinhos às 7.00 horas da manhã. Na versão oficial, Florbela Espanca acaba por falecer às 22.00 horas do dia 7 de Dezembro, na sua residência da Rua 1 de Dezembro em Matosinhos.
9 de Dezembro – Funeral de Florbela Espanca em Matosinhos.
1931
Janeiro – Publicação do livro “Charneca em Flor” por Guido Battelli.
Julho – São editados por Guido Battelli, igualmente em Coimbra, “Livro de Mágoas” e “Soror Saudade” (2a edição), “Juvenília”, “Cartas de Florbela Espanca a D. Júlia Alves e a Guido Battelli” e “Charneca em Flor” (2a edição), com 28 sonetos inéditos (Reliquiae).
1949
13 de Junho – Pelo facto de ser filha ilegítima, João Maria Espanca decide perfilhar Florbela.
18 de Junho – É inaugurado no Jardim Público de Évora um monumento a Florbela da autoria do escultor Diogo de Macedo.

1954
3 de Julho – Morte em Vila Viçosa de João Maria Espanca.
1964
O Grupo Amigos de Vila Viçosa procede à trasladação dos restos mortais de Florbela para Vila Viçosa.
1994
Exposição temporária comemorativa do centenário de Florbela Espanca, designada Florbela! Flor Bela!.
2014

É lançada uma petição pública, dirigida ao Município de Vila Viçosa, com o objetivo de apelar à constituição de uma Casa-Museu em homenagem à poetisa calipolense, na casa onde residiu durante a infância e adolescência, na antiga Rua da Corredoura. Pretendia-se com esta iniciativa, apelar ao poder político para a necessidade de preservação da memória florbeliana, através da constituição de uma unidade museológica que acolhesse bens públicos e privados relacionados com o universo florbeliano.
Este tema tinha vindo a ser sucessivamente adiado e graças à insistência de um grupo de cidadãos decidiu-se lançar esta iniciativa de modo a consciencializar. todos os interessados sobre esta matéria (calipolenses, estudiosos, investigadores, poetas e sociedade em geral), relativamente à necessidade de preservar esta memória que é de todos nós.
2019
No âmbito do Colóquio Internacional - 100 anos de Florbela Espanca, organizado pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e pelo Município de Vila Viçosa, o Museu-Biblioteca da Casa de Bragança preparou uma exposição dedicada à Poetisa, que foi inaugurada no dia 7 de Dezembro, no Paço Ducal de Vila Viçosa.
A exposição designada “Sonho que um verso meu tem a claridade para encher todo o Mundo”. Esta iniciativa contou com a colaboração de alguns colecionadores particulares e com o Grupo “Amigos de Vila Viçosa”, que disponibilizou alguns manuscritos e objetos pessoais da Poetisa. A exposição esteve patente até dia 12 de Janeiro de 2020.
2020
Os promotores do projeto CASA FLORBELA ESPANCA® adquirem a residência onde a Poetisa viveu, situada na Rua Florbela Espanca no 59 em Vila Viçosa. No mesmo período também vem adquirindo um espólio florbeliano original, composto por cartas manuscritas, postais, fotografias e objetos pessoais do uso quotidiano da poetisa, de João Maria e Apeles Espanca.
A consulta e análise desse acervo permitiu a inclusão de novos factos na biografia e irá contribuir nas pesquisas mais aprofundadas sobre a vida e obra de Florbela Espanca.
Este espaço vai servir para homenagear e valorizar o legado da Poetisa e permitir a sua fruição pública.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

AA. VV., Florbela! Flor Bela! : Exposição comemorativa do Centenário de Florbela Espanca,1894/1994, org. Biblioteca Florbela Espanca, Associação Portuguesa de Artistas, Vila Viçosa,Grupo Pró-Évora, Évora, 1994 (BA. 14756 V.)
AA. VV., Florbela Espanca, Rev. Alentejana, no 332, Dezembro, Casa do Alentejo, Lisboa,1964.
BESSA-LUIS, Agustina, Florbela Espanca – A Vida e a Obra, Col. A Obra e o Homem, ed.Arcádia, Lisboa, 1979
GUEDES, Rui Guedes, Acerca de Florbela, Publicações D. Quixote, Lisboa, 1986
CASA FLORBELA ESPANCA®, Arquivo, Vila Viçosa 2020
Autoria – Franquiline Triet e Tiago Salgueiro